Artigo
Num país de não leitores, a leitura é um ato de resistência
12/04/2026
08:30
Bosco Martins*
Bosco Martins*
Há livros que só precisamos provar; outros, que devemos devorar; e alguns poucos, indispensáveis, que exigem ser mastigados e digeridos.
Essa lição de Francis Bacon me acompanha. O prazer da leitura é insubstituível. Um dos livros mais impactantes que li foi Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Demorei semanas para digeri-lo. Ele muda nossa visão de mundo sem percebemos de imediato, mostrando a natureza humana mais crua, sem filtros.
Venho do jornalismo. Minha formação literária me ensinou que escrever bem exige ler bem. Li Guimarães Rosa e sua obra-prima Grande Sertão: Veredas; Gilberto Freyre para entender o Brasil; Clarice Lispector (A Hora da Estrela previu o cardápio do brasileiro); Vargas Llosa; Autran Dourado (que só entendi dez anos depois).
Li Dostoiévski: Os Irmãos Karamazov mostra a grandeza dos simples, a sabedoria sem escolaridade. E Tolstói, em Anna Kariênina: “Desceu, evitando olhar para Kitty como se evita olhar para o sol, mas a via, como se vê o sol, sem olhar.” Deleite divino.
Infelizmente, o hábito da leitura caiu no Brasil. Hoje há mais não leitores (53%) do que leitores (47%). Palestro em escolas e universidades sobre a necessidade do livro físico, preferido por 83% dos que leem.
Minha dica: ler rápido não é ler bem. Se o livro é só para provar, acelere. Mas se é para mastigar e digerir — como Shakespeare, Dante, Machado de Assis, Montaigne —, então leia, pare, pense, volte, entenda.
Livros assim pedem reflexão, não pressa: mastigue e digira o que vale a pena.
*Bosco Martins é escritor e jornalista.
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